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sábado, 3 de dezembro de 2016

Damon Hill - Watching The Wheels



As autobiografias

As autobiografias se apresentam como obras de não-ficção. Deveriam? Por que alguém escreveria um livro sobre suas verdades?

Nesta, algumas contradições aparentes me geraram desconfiança. Fui lembrado da bobagem que é advogar em causa própria. Quão inutilmente tentamos disfarçar nossas razões e desejos!

Acho que é isso o que torna a autobiografia um gênero interessante: o autor faz um esforço para esconder, e assim revela tudo. Oferece uma bela versão de sua vida, que nos permite inferir como deve ter sido sua vida real.

Mas esse post não tentará expor Damon Hill ou chamar atenção para os trechos do livro que me parecem improváveis. Pelo pouco que eu sabia sobre Damon até essa biografia cair nas minhas mãos, já gostava dele. E nessa obra transborda um ser humano que anseia por respeito, reconhecimento e aprovação. Como não simpatizar? Queremos que as histórias de nossas vidas justifiquem que ganhemos um pouco disso.

Para os fins deste post, vou fazer aquilo que não se deve fazer: acreditar. Vou partir do princípio de que é tudo verdade, embora eu duvide.


A história de Damon

A história do Damon é como a de um ninguém. Um que, como tantos humanos, complica sua já difícil tarefa de existir dedicando-se a um sonho tolo e perigoso: ganhar corridas de motocicletas.

Damon persegue seu objetivo sem a orientação de um tutor, condições propícias, conhecimento ou dinheiro. Seu pai, Graham Hill, um bi-campeão e depois dono de equipe, lhe daria tudo isso, se não houvesse morrido pilotando o próprio avião quando Damon ainda era um garoto. Para a família, ficaram as dívidas da equipe de F1 recém estabelecida e processos judiciais. Para piorar, os seguros de vida não funcionaram, porque Graham estava com a licença vencida quando seu avião caiu.

Um futuro sofrido parecia se desenhar. Damon nunca se interessara pelos estudos. Tolerava a escola. Quando saiu, desejou nunca mais pisar em uma. Tinha paixão por motocicletas, que satisfazia participando de corridas amadoras e gastando dinheiro que não tinha. Mas só perdia. Caminhou para os trinta anos de idade com uma consciência triste e madura de que nunca seria campeão de nada. Para se sustentar e para estar próximo dos motores, trabalhava de motoboy.

E de tanto praticar aos finais de semana nas competições das redondezas de sua cidade, contra pilotos cada vez mais novos do que ele, começou a ganhar algumas corridas. Sua insistência no esporte arriscado deixava sua mãe cada vez mais preocupada. Talvez por saber que não conseguiria fazer Damon abandonar a velocidade, tentou pelo menos convencê-lo a entrar em algo um pouco menos mortal: ao invés de motos, carros.

Com a ajuda de um velho amigo da família, Damon entrou com cara e jeitão de veterano em uma corrida de monopostos, para enfrentar gente mais jovem e experiente. Enquanto os guris voavam na pista, ele, o mais velho, rodava, lerdeava e batia, convencendo a imprensa local de que o filho do Graham Hill era ruim ao volante.

Mas havia patrocinadores dispostos a pagar para estampar o macacão e o carro do filho do bi-campeão. Pelo dinheiro que entrava para pagar a hipoteca e sustentar a família, aceitou conviver com as frequentes derrotas e humilhações nas pistas. Os erros mais crassos na direção ele não precisava repetir. Rodadas e batidas foram diminuindo. Até ganhar corrida ele ganhou. E até subir de categoria ele subiu. Aprendeu a dirigir carros mais velozes. E por saber pilotar máquinas assustadoras e por precisar de dinheiro, aceitou um emprego de piloto de testes da Williams, para ficar dando voltas o dia inteiro com o carro enquanto os mecânicos capturavam dados para desenvolver o equipamento utilizado pelos pilotos titulares.

A primeira volta numa Williams foi como seus usuais fracassos: ajustou errado os botões na saída da garagem e fez o equipamento de dezenas de milhares de libras queimar. A segunda tentativa foi menos infeliz. Damon se sentiu maravilhado com o carro tão rápido e equilibrado. Os técnicos perguntaram o que ele havia achado, e ele respondeu que era incrível. Mas não era isso o que eles queriam ouvir. Queriam informações sobre de que forma o carro poderia ser melhorado.

O trabalho de passar o final de semana todo dirigindo em círculos e esgotando suas forças era para que a equipe aprimorasse o carro mais superior dos anos noventa. Aqueles testes um tanto secretos resultariam na Williams que Ayrton Senna via sumir na sua frente, e que ele chamava de ''carro do outro mundo.'' Um carro ativo, que, entre outras coisas, controlava sozinho a distância para o chão, regulando a pressão aerodinâmica, equilibrando velocidade e aderência. O piloto aproveitava um passeio tranquilo enquanto disparava feito um foguete na frente dos melhores corredores.

Mas Damon Hill não podia correr com aquele carro. Só podia testá-lo para que fosse melhorado para seus colegas. Em 1992, Damon Hill conseguiu uma vaga de piloto titular na Brabham, equipe próxima de fechar as portas e dona de um dos carros mais lentos da época. Tão lento que, aos sábados, fazia tempos tão ruins que era proibido de correr no dia seguinte. E quando milagrosamente conseguia se classificar para correr no domingo, Damon virava retardatário e tomava várias voltas do Nigel Mansell, que dirigia o carro que ele conhecia tão bem.

Nigel Mansell e Damon Hill


Última opção de segundo piloto - 1993

Mansell foi campeão naquele ano. Depois abandonou a equipe repentinamente, por se sentir ofendido com as negociações que aconteciam pelas suas costas entre sua equipe, Alain Prost e Ayrton Senna. Pega de surpresa, a Williams precisou contratar alguém às pressas para o lugar de Nigel, e que aceitasse ser um piloto número dois, para apenas apoiar o piloto principal, Prost. Damon Hill lembrou o time de que ele sabia pilotar aquele carro. Por falta de alternativas, Damon acabou contratado para ser sempre segundo. E ficou muito feliz. O salário era baixo, mas era o maior dinheiro que poderia ganhar.

Em sua primeira corrida pela Williams, como de costume, deu tudo errado. Dirigindo o carro mais fácil de controlar que já existira, Damon perdeu o controle, rodou e abandonou a corrida. Do lado de fora da pista, ficou assistindo a tudo deprimido, sendo fotografado desmoralizado para o deleite dos jornais.

Na corrida seguinte, ficou com medo de bater de novo e deixou Senna passá-lo facilmente em Donnington Park. Arrepende-se até hoje. Mas pelo menos terminou a corrida. Corrida tão marcante que rendeu até um museu, diga-se de passagem. Foi um passo adiante.




Damon diminuiu a taxa de erros ao longo do ano. Até que ganhou uma, duas, três corridas. Teve a honra de ter Alain Prost pedindo que não lhe ultrapassasse, e de ser reprimido por Ayrton Senna por ousadia nas manobras.

No fim do ano, a história se repetiu. A Williams queria o Senna na equipe, coisa que o Alain Prost não aceitaria. Alain foi convencido a deixar a equipe para fazer lugar, e uma vaga de segundo piloto para mais um ano sobrou para o Damon.

Damon e Ayrton viraram colegas. Admirar Senna não é difícil, mas Damon vai além. Chama-o de ''mestre''. Descreve seus gestos com reverência. Narra suas falas e atitudes como impossíveis de se replicar. Conta que os mecânicos e demais colegas da Williams não falavam com ele, porque eram assombrados pela sua presença. Ficavam retraídos diante da sua celebridade e seriedade.




Mesmo assim, Damon defende que a morte de Senna em Ímola não foi causada por falha de equipamento. Em um capítulo sobre o assunto, Damon sugere que Senna perdeu o controle do carro por ter arriscado demais. Na Curva Tamburello havia elevações no asfalto, e Damon desviava delas, perdendo um pouco de tempo. Se passasse sobre elas, concluiria a curva mais rapidamente, mas correria o risco de o carro pular, cair, encostar o assoalho no chão, perder pressão aerodinâmica e escapar para o lado, terminando naquele muro assassino. Já Senna, de acordo com Damon, havia partido para o tudo ou nada, e passava pelas irregularidades do asfalto para ganhar vantagem. Pelas imagens da corrida, Damon interpreta que aconteceu com Senna exatamente o que ele tentava evitar ao desviar das elevações.


Última opção de primeiro piloto - 1994

Depois daquele fim de semana trágico, a Williams precisou promover a primeiro piloto aquele que não pretendia escolher nem para segundo: Damon Hill.

Damon ganhou corridas naquele ano de 1994, mas expressa que sentia que a equipe nunca levou fé nele, nem deu a ele a atenção que um candidato ao campeonato precisaria para vencer. Além disso, pipocavam sugestões de que a Benetton, equipe de Michael Schumacher, era movida à trapassa. O motor fazia um som estranho que sugeria que poderia ter controle tração. A mangueira que abastecia o carro com gasolina violava o filtro para fazer uma parada de boxes mais rápida. O carro arrancava com velocidade na volta de apresentação, o que levou a suspeitas de que tinha um sistema de largada automático. E o contato com o chão era impedido por uma barra proibida.

Não bastasse, depois de bater no último grande prêmio do campeonato, Schumacher jogou o carro para cima de Damon para eliminá-lo da corrida e ganhar o campeonato por um ponto. Narrada assim, a temporada de 1994 tem um campeão de fato: Damon Hill. Mas no papel ainda consta Schumacher.


Última opção de primeiro piloto - 1995

Damon Hill descreve esse seu ano na Formula 1 como vergonhoso. Bateu e rodou mais do que o aceitável. Em uma das últimas reuniões de equipe do ano, entrou na sala envergonhado, com vontade de chorar, e sentindo necessidade de aprovação paterna dos seus chefes.

Mas seu emprego estava seguro. O contrato para 1996 fora assinado durante o campeonato, quando ele ainda não tinha cometido tantos erros.


Um ano com um carro confortável - 1996

Damon diz que o carro de 1996 fora desenhado para ele, era muito equilibrado e o deixava confortável. Schumacher estava fora da disputa, com uma Ferrari que apresentava muitos problemas. Damon disse que foi fácil ganhar aquele campeonato, apesar da pressão de ter um companheiro de equipe bem mais jovem e quase tão rápido quanto ele, que nas pistas ameaçou humilhá-lo, roubando seu título na estreia.

Numa das últimas corridas no ano, a que lhe rendeu o campeonato, Damon percorreu a volta de encerramento já com nostalgia, despedindo-se com carinho do carro, pois seu contrato não fora renovado. Para a equipe, talvez ele fosse um campeão circunstancial.


Os três últimos anos na Formula 1

Damon correu pela Arrows, um carro não competitivo, em 1997. Liderou uma corrida e quase venceu, até o equipamento quebrar.Em 1998, Damon correu pela Jordan, e deu à equipe sua primeira vitória, na Bélgica. Dois anos que talvez comprovem ao olhar atento que Damon era um grande piloto.

Então veio 1999, quando Damon se sentiu muito mais lento que seu companheiro de equipe, Heinz-Harald Frentzen, ficou mentalmente desestabilizado, passou a sentir muito medo de morrer jovem como seu pai e teve ataques de pânico. Tentou assinar uma saída antecipada da categoria, mas não conseguiu o que queria nas negociações. Participou das últimas corridas temeroso, desejando que terminassem rápido.


Fim de carreira

Fora das pistas, Damon teve depressão. Fez terapia para aprender a lidar com incertezas e inseguranças que, afirma, são resultado da bagunça que seus pais fizeram em sua cabeça quando era criança.

Damon aproveita a aposentadoria para ler livros sobre filosofia e religião e aproveitar a família. Usou o tempo livre também para se formar em literatura pela Open University.

Aqui, abro parênteses para invejar saudável e abertamente: eu também queria ter convivido com o Ayrton Senna, com o Alain Prost, ter estado nas pistas de Formula 1 nos anos em que os carros estiveram mais bonitos, ter enriquecido, ter me aposentado cedo, ter estudado literatura e ter os dias inteiros para ler filosofia.




Essa autobiografia permite ao leitor sentir uma aproximação improvável com um ambiente tão exclusivo. Uma competição para a qual as pessoas começam a treinar com quatro anos de idade, mas para a qual ele só começou a se dedicar perto dos trinta. Uma categoria em que se precisa entrar com muito dinheiro, e ele precisou entrar sem. Um campeonato em que, para se vencer, é importante ser o favorito da equipe, mas onde ele era o preterido. Uma luta em que é preciso estar com a mente boa, e a sua estava perturbada. Uma batalha em que é preciso ser confiante, e onde ele vivia inseguro.

Ainda assim, tornou-se um campeão, emocionando Murray Walker durante uma narração história, enquanto Damon Hill vencia a corrida que empacotava o ano:

Isso é algo que muitas pessoas pensaram que não seria possível de acontecer hoje - eles acharam que Damon correria uma corrida cuidadosa, mas ele lutou. Ele lutou de segundo lugar no grid, ultrapassou Jacques Villeneuve, tomou a liderança, manteve-a, e Damon Hill sai da chicane e vence o Grande Prêmio do Japão. E eu preciso parar, porque estou com um nó na garganta.

Para concluir

Se essa biografia é sincera, completa e precisa, o Damon Hill é um grande gente boa. Do contrário, é um dos meus personagens preferidos da ficção.

O livro é cheio do maravilhoso humor britânico, auto-depreciação, e descrições vívidas de vivências e sentimentos de família.

Leitura prazerosíssima sobre uma vida extraordinária.


Outras revisões

Endossada!

https://www.theguardian.com/sport/blog/2016/sep/02/damon-hill-depression-graham-autobiography-formula-one

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Paisagem pintada

Marine Landscape (The Cape And Dunes Of Saint-Quentin) - Jules Dupre
... lemos romances de aventura, novelas de cavalaria, romances baratos (histórias de detetive, de amor, de espionagem e por aí afora) para ver o que acontece na sequência; mas lemos o romance moderno (o que hoje chamamos de "romance literário¨) por sua atmosfera. De acordo com Ortega y Gasset, o romance de atmosfera é algo mais valioso. É como uma "paisagem pintada" e contém bem pouca narrativa.
Pensamentos de José Ortega y Gasset, tirados de "O romancista ingênuo e o sentimental", de Orhan Pamuk.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Ter Prazer Com Um Romance

Ter prazer com um romance é desfrutar o ato de partir de palavras e transformar essas coisas em imagens mentais.
Chinesischer Maler des 11. Jahrhunderts (I) - Buddhistischer Tempel in den Bergen

Orhan Pamuk

domingo, 16 de outubro de 2016

A Vegetariana - Han Kang


Alerta aos visitantes do blog

Este post está cheio de spoilers, de cabo a rabo. O propósito aqui é explorar os temas do livro, junto de quem ou já leu o livro, ou não pretende lê-lo, ou pretende lê-lo mas não se importa de perder as surpresas.


Sobre o que é o livro

Ao remover a carne de sua dieta, uma mulher causa um terremoto nas vidas do marido, pai, mãe, irmã, cunhado e sobrinho.

Qual é o sentido, ou o tema que permeia a obra? Não sei dizer se há um. Essa é uma característica das boas histórias. São como a vida: podem ter um sentido ou não. Mas há temas perturbadores e importantes de sobra esparramados e explorados com coragem.


Sobre o título

Considerando que a personagem de que fala o título do livro passa a evitar carne, ovos, leite, couro e todo e qualquer produto de origem animal, trata-se tecnicamente de uma vegana. Fiquei pensando sobre a razão de o livro se chamar "A Vegetariana."

Minha suspeita foi se formando na leitura da primeira das três partes do livro, que é narrada pelo Sr. Cheong, um marido insensível, um verdadeiro bruto. Sem nunca fazer esforço para entender as razões que levaram a esposa Yeong-hye a jogar fora praticamente tudo o que tinha na geladeira, ele passa a chamá-la de vegetariana, dedicando à pessoa todo o desprezo que também possui pela palavra. Nisso ele é acompanhado pelos colegas de trabalho e pelos familiares, que não presumem que uma vegetariana/vegana merece qualquer gota de respeito.

Lá para o final da história, Yeong-hye também deixa de comer vegetais. Um hospital a classifica como um caso de anorexia, e presume que a paciente tem uma visão distorcida de si, enxergando-se gorda.

Nem ocorre a Yeong-hye se classificar entre vegetariana, vegana ou anoréxica. Sua repulsa à carne é declarada depois que um pesadelo que envolve carne e sangue começa a se repetir. Mas o que parecia ser uma natural e ética rejeição ao sofrimento animal evolui para uma série de comportamentos difíceis de compreender, e que culminam com Yeong-hye acreditando ser uma árvore. Por esse motivo, já em um hospital psiquiátrico, fica de ponta cabeça e tenta absorver água do chão com as mãos, de onde pensa que estão nascendo raízes. 

Minha interpretação é a de que o título é aquilo que permeia a obra: um equívoco. A família, os conhecidos e a própria Yeong-hye se equivocam sobre o que ela é, e sofrem as sérias consequências desse engano.


Sobre a história

Parte 1 - The Vegetarian

Mr. Cheong é um homem de ambições e desejos moderados. Escolheu um emprego em que consegue ganhar mais ou menos, e em que precisa se dedicar mais ou menos. A mesma lógica ele aplicou quando decidiu se casar com Yeong-hye:

However, if there wasn't any special attraction, nor did any particular drawbacks present themselves, and therefore there was no reason for the two of us not to get married.

A união não trouxe grandes alegrias ou tristezas. Yeong-hye passava a maior parte de seu tempo lendo, e cozinhava refeições que muito satisfaziam Mr. Cheong. Depois de alguns anos, quando Mr. Cheong começava a imaginar se teria um filho, Yeong-hye o surpreende com comportamentos que ele não compreende.

Depois de sonhar com carne e sangue contaminando seu corpo, Yeong-hye acorda de madrugada e joga fora toda a carne que tinha dentro da geladeira e do congelador. Ação que me pareceu natural: Yeong-hye gostava de ler. Imaginei que pela leitura ela esbarrara em um dos inescapáveis argumentos contra o consumo de carne, e conseguira eliminá-la de sua dieta. É difícil fugir da ideia de que consumir carne não é ético. E Yeong-hye sugeria perspicácia ao discutir com o marido, que reclamou de não ter mais carne em casa.

Well, after all, you usually only eat breafast at home. And I suppose you often have meat with your lunch and dinner, so... it's not as if you'll die if you go without meat just for one meal."

Yeong-hye também joga fora os ovos, o leite e o couro que encontra no lar. Depois passa a rejeitar o marido, que ela diz carregar o cheiro de carne no suor. No trecho abaixo, Mr. Cheong dá o tom da relação com a esposa antes e depois da nova dieta.

But what troubled me more was that she now seemed to be actively avoiding sex. In the past, she'd generally been willing to comply with my physical demands and there'd even been the occasional time when she'd been the one to make the first move. But now, although she didn't make a fuss about it, if my hand so much as brushed her shoulder she would calmly move away.

Quando Yeong-hye sai para jantar com o marido e seus colegas de trabalho, é agredida. Os presentes criticam abertamente sua escolha e dizem ser desagradável estar perto de uma vegetariana. Em uma reunião de família, o ataque é ainda pior. O pai a xinga, faz ridículo da sua alimentação, bate nela e enfia-lhe um pedaço de porco goela abaixo.

O que eu imaginava que viria na sequência seria o contra-ataque: Yeong-hye usando sua lógica para fazer sua escolha se impor como a atitude mais correta. Mas a história toma outro rumo.

Os sonhos que atormentavam Yeong-hye quando ela comia carne continuam. Ela não consegue mais dormir. A falta do sono fica aparente no seu rosto e na sua constituição. Ela fala cada vez menos, e perde o interesse em todas as coisas. Corta um pulso. Fica nua em lugares públicos e tenta se alimentar do sol.

Eu, leitor que pensava entender a motivação de Yeong-hye, fiquei perdido. Se ela houvesse tentado articular que o consumo de animais não se justifica, dado o imenso sofrimento que a produção de carne causa e o desperdício inerente de recursos, o livro teria me levado para águas conhecidas.

Fiquei intrigado, e assim fui até o fim do livro, sem encontrar resposta. Continuo perdido: o que aconteceu com Yeong-hye? Por que os sonhos, a insônia e o silêncio? A obra acabou, e permaneço curioso. Será que a resposta está dentro, e deixei passar?


Parte 2 - Mongolian Mark

A história deixa de ser contada em primeira pessoa por Mr. Cheong. Agora a narração é externa, mas a perspectiva é do cunhado de Yeong-hye, que é casado com In-hye, dona de loja de cosméticos e irmã de Yeong-hye.

O nome do cunhado de Yeong-hye nunca aparece. Fico imaginando se isso é uma conquista literária, um desafio vencido: escrever dezenas de páginas de uma trama, sem nunca mencionar o nome do seu pivô, e sem que isso se torne um problema para a clareza da história. Achei estimulante.

Chamemos então a personagem de Cunhado. Foi o Cunhado quem carregou Yeong-hye no colo para levá-la ao hospital e ficou com a roupa cheia do seu sangue, na noite em que ela cortou o pulso.

E o Cunhado era um artista. A história parece nos dizer que sua contribuição para a renda da família era nada ou perto de nada. Mesmo assim, sua dedicação aos seus vídeos artísticos era mais do que profissional. Virava as noites trabalhando. Por isso tinha sempre um semblante exausto. Se lhe ocorria uma ideia para produzir um vídeo, não pensava em mais nada.

Foi uma infelicidade sua esposa In-hye comentar que a irmã Yeong-hye tinha uma marca de nascença nas nádegas. O Cunhado, que já achava Yeong-hye mais atraente do que In-hye, fica obcecado pela mancha que nunca viu, e pela sua dona. Imagina como o corpo de Yeong-hye ficaria bonito se nele pintasse flores que combinassem com a mancha. Deseja filmá-lo. Quer fazer arte com ele.

Yeong-hye perde a fala. Fica internada e é medicada por meses. Depois de uma mínima melhora, começa a dizer uma coisa ou outra, e é liberada para ir para casa. Fora abandonada pelo marido, e agora a irmã lhe visita de vez em quando, para garantir que a inválida e talvez já desprovida de julgamento Yeong-hye coma alguns vegetais e frutas.

O Cunhado, porém, vê nessa condição de Yeong-hye a chance de fazer a sua arte. E quando a esposa lhe pede que visite Yeong-hye para ver se está tudo bem, a ideia lhe desperta desejos.

Como já havia feito nos hospitais, Yeong-hye continua procurando expor seu corpo nu ao sol. É assim que o Cunhado a encontra quando vai visitá-la: nua e desligada do mundo. Ele a convence sem dificuldades a permitir ter seu corpo nu pintado, a posar com um homem, e a ter relações com ele, sempre sob uma câmera filmadora ligada. Entre planejamento e execução da ''obra'', o Cunhado evita de passar tempo com a esposa e com o filho pequeno, que precisa dele. Chega tarde em casa. Mente.

A vegetariana não só não recebe o respeito e a atenção que deveriam ser seu direito. Tiram vantagem de sua insanidade.

A parte 2 do livro termina quando In-hye descobre as relações entre seu marido e sua pobre irmã, a quem resta apenas um livre-arbítrio confuso, que já não parece humano. Ao ser pego, o Cunhado conclui que já viveu bastante de qualquer forma, e que acabou de realizar um sonho. Pode morrer em paz, e tenta se matar. Filho e família nem lhe passam pela cabeça.


Parte 3 - Flaming Trees

Yeong-hye está internada em um hospital psiquiátrico. In-hye é a única a visitá-la, mas não fico convencido de que é por saudades ou carinho, mas por decência e por culpa.

In-hye se pergunta se poderia ter prevenido o enlouquecimento da irmã. Talvez se tivesse agido para que a irmã não apanhasse do pai quando era criança? Ou tivesse arrancado a faca de sua mão quando tentou se matar? Se houvesse tentando impedir o divórcio?

Yeong-hye está no seu pior momento. Não fala, e quase nunca interage. Agora pensa que é uma árvore. Fica de ponta cabeça no chão, na esperança de que nasçam raízes de suas mãos e folhas de seu corpo.

Qual é a natureza da loucura de Yeong-hye? Por que era atormentada por sonhos com carne e sangue? A ideia de que uma flor poderia nascer de dentro dela teve início quando o cunhado lhe pintou flores. Seu silêncio se intensificou depois que tentou convencer In-hye de que era uma árvore, e In-hye respondeu que plantas não falam. Parece que seleciona e absorve do ambiente ideias para se tornar cada vez mais um vegetal.

"Você realmente acha que virou uma árvore? Como uma planta poderia falar?"
 ''Você tem razão. Logo palavras e pensamentos vão todos desaparecer."

Neste capítulo, enquanto visita a irmã e reflete sobre seu estado, In-hye tem seus pensamentos expostos ao leitor. Talvez seja a personagem mais atormentada por eles. Justo In-hye, a mais prática, independente, trabalhadora e objetiva. Ela, que não hesita, que conduz um negócio desde nova, que faz as coisas acontecerem, está tomada por incertezas, e esteve mais perto do suicídio do que Yeong-hye.

In-hye percebe que se equivocou sobre seu ex-marido. Diz que sentira vontade de ajudá-lo quando o vira pela primeira vez, com uma aparência tão exausta, e agora, anos depois, percebe que não havia necessariamente carinho nessa atração. Ela se sentia cansada, por ter dependido sempre da própria energia desde pequena, e projetara seu cansaço no então namorado, com quem não tinha muitas semelhanças. Enquanto In-hye era pura praticidade, ele era todo devaneios.

Mas pelo menos uma coisa In-hye tinha em comum com o marido: no dia em que tentara se matar, não pensara muito no que seria do seu filho, que ficaria sem pai nem mãe.

Ela não consegue explicar, nem para si mesma, quão fácil foi tomar a decisão de abandonar sua criança. Era um crime, cruel e irresponsável; ela nunca conseguiria se convencer do contrário, então era também algo que ela nunca seria capaz de confessar, ou ser perdoada. A verdade era algo que ela simplesmente sentia, de uma forma horrivelmente clara.

Nas últimas páginas do livro, Yeong-hye é quase um esqueleto. Está muito próxima da morte quando médicos tentam um procedimento para nutri-la, e seu corpo reage cuspindo sangue.

Então, pela primeira vez em todo o drama, depois de Yeong-hye ter sido desprezada, debochada, brutalizada e abusada, alguém lhe dirige uma palavra mais delicada, ou tenta se aproximar de seus problemas de uma forma um pouco mais humana.

In-hye sussurra no ouvido de Yeong-hye, que está numa ambulância, sendo transportada para um segundo hospital para receber tratamento intensivo:

Eu também tenho sonhos, sabe. Sonhos... e eu poderia me deixar dissolver neles, deixar que me tomassem... mas sonhos não são tudo, são? Nós temos que acordar em algum momento, não é?

Eu gostaria de saber qual seria a reação de Yeong-hye, depois de ouvir a primeira aproximação minimamente gentil. Será que ela ignoraria o comentário como vinha ignorando tudo e todos há meses? Acho que não. Penso que finalmente reagiria. Mas o livro acaba nesse momento. Um grande final.

Se o livro permite ao leitor entender o que se passava de fato com Yeong-hye, não sei dizer. Para a minha alegria, fui a um grupo de leitura que debateu essa obra na livraria Foyles da Charing Cross, em Londres. Acho que éramos quinze ou vinte leitores. A pergunta foi feita por uma presente: qual é o significado do que se passa com Yeong-hye? O que os sonhos, depois o vegetarianismo querem dizer? É possível mesmo concluir que Yeong-hye estava louca?

Uma leitora tinha certeza que sim, estava louca. Outros - eu entre eles - nem tanto. Houve quem achasse que o comportamento todo era uma reação ao marido nojento e ao pai bruto. Embora eu concorde que esses dois homens eram monstros, entendo que ninguém na família tratava Yeong-hye com carinho. Apesar de todas as dificuldades que ela passa, ninguém lhe dirige uma palavra doce. Ninguém lhe diz: ''tenho medo de perder você. Me dói saber que você está sofrendo."

As personagens do livro só conseguem especular.

Parece que para ela bastava lidar com o que quer que fosse calmamente e sem incômodos. Ou talvez fosse que houvesse coisas acontecendo dentro dela, coisas terríveis, que ninguém conseguia nem sequer imaginar, e era portanto impossível para ela se envolver com o cotidiano.

Um leitor achou inverossímil a forma como os conhecidos e a família reagiram ao vegetarianismo de Yeong-hye. Na opinião dele, ela não seria tratada com tanto desrespeito e agressividade só por causa da dieta. "Não aqui, pelo menos", disse ele. Essa ressalva foi importante. "Aqui" é Londres, onde o número de vegetarianos é enorme, e onde a sociedade já aprendeu a respeitar em grande medida as dietas alheias. No Brasil, tenho certeza absoluta de que o vegetarianismo de Yeong-hye seria recebido com a mesma falta de tato. Vi acontecer recentemente. E eu mesmo já fui daqueles que não percebem nenhum motivo para não dar risada daquilo que me parecia uma palhaçada.

Esse é um lembrete de que há elementos dessa obra que só serão compreendidos por aqueles que moram onde foi escrita, na Coréia do Sul.


Sobre o significado da obra

A Vegetariana é uma história com pouca narrativa. O que nós lemos no livro na maior parte do tempo são pensamentos e comportamentos extraordinários. Para mim, a pergunta brotava em todas as páginas: o que está acontecendo? E por quê?

Depois da leitura, das reflexões, do debate em um grupo de leitura, e pesquisas na internet, continuo sem saber. E, repito, acho que a obra não diminui por causa disso. Trata-se de uma história que foi escrita para ser como a vida: pode ter um sentido ou não.

Ou então a autora escondeu o sentido bem e sutilmente.


Sobre o estilo


Acho que todos nós que já lemos vários livros sabemos quando o autor está tentando apresentar suas personagens. Quando pessoas aparecem pela primeira vez, tendem a surgir em páginas que já dizem a cor dos cabelos, a altura, os cacoetes e a idade.

Achei esse livro extraordinário na forma como contornou esse padrão. As descrições das personagens não acontecem na ordem em que estamos acostumados. A aparência e a psique de cada uma vão sendo reveladas de uma forma mais diluída do que a usual. É o caso, por exemplo, do Cunhado, cujos esforços de fazer um vídeo de Yeong-hye são claramente absurdos na parte dois, mas se tornam mais compreensíveis na parte três, quando In-hye reflete sobre seu ex-marido, sua obsessão por sua arte e seu hábito de trabalhar até o esgotamento para colocar em vídeo seus devaneios.

E o que dizer de o livro ter uma personagem chave e nunca nos informar seu nome?

Fica o gosto de ter lido um estilo bom, incomum, talvez novo.

Também foi com alegria que notei refletida e permeada nesse romance uma sutil ausência de superstições. Quando Yeong-hye se expõe ao sol, ela é descrita como uma humana que evoluiu para fazer fotossíntese. A expressão natural em outras épocas da história da nossa humanidade seria "como uma humana que Deus houvesse criado para absorver luz como se fosse uma planta."


Sobre o prêmio

A autora Han Kang ganhou o prêmio Man Booker International com esse livro. Foi por isso que cheguei nele. Não... na verdade, foi porque eu sabia que o livro Uma Estranheza Em Mim, do Orhan Pamuk, estava concorrendo e eu torcia para que ganhasse. Mais tarde eu soube que A Vegetariana fora a premiada, e fiquei curioso sobre quem poderia ter batido aquela obra prima.

Agora que li as duas obras, naturalmente quero tentar responder: qual dos dois livros merecia o prêmio? Vou dar uma evasiva: não sei qual é o critério nem o propósito do prêmio Man Booker International. Sem fazer o esforço para aprender, vou evitar de opinar por hora! Mas vou divagar.

Digamos que o objetivo do prêmio é facilitar o desenvolvimento e sucesso de autores. Neste caso, faz todo o sentido que o prêmio tenha ido para este livro maravilhoso que é A Vegetariana, escrito por uma autora que, ao contrário do Orhan Pamuk, ainda não tem Prêmio Nobel, nem um museu dedicado a um livro seu.

Han Kang


Se o objetivo do prêmio é coroar uma obra pela sua qualidade, eu acredito que Uma Estranheza Em Mim deveria ganhar a disputa. Acho que é uma conquista literária maior.

Mas os dois livros são maravilhosos.


Revisões do livro

Essa revisão de Laura Miller foi minha favorita. Talvez porque nossas visões sobre a obra sejam tão parecidas.

http://www.slate.com/articles/arts/books/2016/02/han_kang_s_the_vegetarian_reviewed.html

A
rule of thumb: The more avidly you want an explanation of the meaning behind a powerful and cryptic work of art—from David Lynch’sMullholland Drive to Franz Kafka’s Metamorphosis—the less satisfying and comprehensive the answer can ever be. Sometimes how a book or a film puzzles you—how it may mystify even its own creator—is the main point. The way it keeps slithering out of your grasp.

Some reviews of The Vegetarian have insisted on viewing the novel as a piece of social protest, but this seems beside the point... The Vegetarian has an eerie universality that gets under your skin and stays put irrespective of nation or gender. But exactly what its business is there, I would not presume to say.



Revisão muito boa do The Guardian.

https://www.theguardian.com/books/2015/jan/24/the-vegetarian-by-han-kang-review-family-fallout

This is Han Kang’s first novel to appear in English, and it’s a bracing, visceral, system-shocking addition to the Anglophone reader’s diet. It is sensual, provocative and violent, ripe with potent images, startling colours and disturbing questions... The Vegetarian is an extraordinary experience.

Esta revisão traz especulações interessantes que não apareceram neste post.

http://www.counterpunch.org/2016/07/22/review-han-kangs-the-vegetarian/

Whatever, Han Kang’s The Vegetarian will make you think. You cannot turn the final page of this provocative novel without asking yourself a number of questions 

Já essa revisão do Independent começa mal, erra detalhes ao descrever a história, e até troca um nome de personagem (chama de "J" um personagem que não tem nome, o Cunhado, e que na verdade era conhecido de J. )

http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/books/reviews/the-vegetarian-by-han-kang-book-review-society-stripped-to-the-bone-9969189.html

Han Kang’s achievement is to suggest that this defiant act of vegetarianism can smash several lives and threaten the order of a society. 
A protagonista não tem um "ato de vegetarianismo." Ela é impelida por sonhos, talvez por uma condição ou patologia, a deixar de comer carne, e depois a deixar de comer qualquer coisa que fosse. E a "ordem da sociedade" não chega nem perto de ser abalada nesse livro.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

The Insane And The Melancholy - Ece Temelkuran

Ler Orhan Pamuk me fez desejar visitar Istanbul, o que fiz em 2015. A viagem e os romances têm me causado apego. Fico preocupado ao ler e ouvir sobre um conservadorismo e um governo que vêm limitando as liberdades dos turcos.

Se o que tenho lido e ouvido procede, ainda não sei dizer. Quando esbarrei nesse livro, vislumbrei uma chance de encontrar algumas respostas.


O tom do livro é de denúncia. Fala de um governo que manda demitir jornalistas, persegue opositores, ignora as leis, atropela o poder judiciário, e fomenta uma perseguição silenciosa de mulheres que não usam véu ou que vestem calças justas. Fala de um povo que está apavorado com a possibilidade de um regime totalitário.

Crianças impotentes diante de um sistema educacional tornado cada vez mais reacionário e totalitário por meio de aulas de religião...
E uma noção arrepiante de estar perto de perder a cabeça depois de ouvir as centenas de apoiadores que aparecem em nossas telas com a confiança de que tudo isso forma um quadro da ''grande Turquia'' e ''democracia avançada...''

As quase trezentas páginas do livro tentam contextualizar a história da Turquia, como a população se comportou e se sentiu em cada fase do último século, e como se chegou ao atual estado de coisas. Mas eu não aprendi muito. Fiquei bastante confuso com a escrita.

Fala-se dos anos vinte, depois avança-se para os anos 80, depois volta-se para os 40, depois vamos para 2010, depois voltamos para os 80... a autora fala de vários assuntos ao mesmo tempo, e se desculpa pelas digressões. Coloca várias palavras e frases entre aspas, e eu fiquei na dúvida se o objetivo foi ironizar, ou utilizar a expressão de outra pessoa, ou indicar que falta palavra melhor para explicar o raciocínio.

Há bastantes interpretações e pontos de vista, que relacionam várias décadas, e descrições de pensamentos que estariam na cabeça de vários grupos de pessoas, que não são claramente definidos. Fala-se muito de mudanças, marcos e significados, que são tão abstratos quanto essas próprias palavras. Fazem-se analogias difíceis de se seguir, e que não parecem ter correspondência na realidade.

With his formidably muddled mind, home and story, Mr. Turkey (I think we can all agree that he is a he) would like to show us his photo album. These are photographs of the memories and associations that have most deeply impressed and shaped him or have otherwise obsessed him, even though he cannot define them exactly. But the album is totally disorganised. Not only that, but a pile of photographs don't even fit inside it. Just as each attempt at organising a library is interrupted by a reverie as we come across a letter, a book, a journal or a note, Turkey too was interrupted each time he tried to organise his album and photographs of the past. The organised part of the album isn't even in chronological order. Why? Because ''yesterday'' doesn't stay put here. It oscillates between near and far in today's political, social and moral fights, conflicts and controversies. While a faraway memory appears fresh as a daisy, a very recent memory is treated as though it happened a million years ago. ''But that's no way to perceive time,'' you say. ''Doesn't that complicate things?'' He replies, ''It does complicate things. As it should!'' You say, ''With a yesterday at a constantly shifting distance, it must be easy to play games with people's memories.'' ''Yes,''he laughs. ''Speaking of which, let me tell you a 'symbolic' and 'ironic' story about this whole mess.''He tells the story of something that happened in April 2012... 

Apresentam-se muitos números: quantidades de feridos em ataques, de jornalistas demitidos, de cidadãos assassinados, de militantes torturados, na maior parte das vezes sem que se indique de onde veio a informação. Acusa-se o governo de manipular indiretamente números, e eu fico pensando se isso inclui os números que estão apresentados no livro.

Por esta obra, recebi bastante informação cuja confiabilidade não ficou aparente, e que não consegui ordenar em meus pensamentos. Depois da leitura, continuo entendo pouquíssimo do que pode estar se passando na linda Turquia.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A Casa das Sete Mulheres - Letícia Wierzchowski



A vontade que tenho é de ler cada vez mais devagar.

Lê-se para sentir, e para encontrar definições para os sentimentos.

Todo mundo sabe o que é saudades, medo, ansiedade, fome, sede, sono. Mas há sentimentos para os quais não há nomes. Se há nomes, não são universalmente reconhecidos.

Qual é o nome do sentimento que permeia esse trecho?

... a vida era bela, éramos todos jovens, e o Rio Grande era uma terra rica, terra da qual nossas famílias eram senhoras. Distante de mim, tio Bento e meu pai riam e bebiam à solta, homenzarrões de vozes trovejantes, de alma larga. As mulheres ocupavam-se com seus assuntos menores, seus anseios, não reles em tamanho, pois dessa delicada fímbria feminina é que são feitas as famílias e, por conseguinte, a vida; falavam dos filhos, do calor do verão, dos partos recentes; tinham um olho posto nas conversas, os risos doces, a alegria; porém, com o outro fitavam seus homens: tudo o que lhes faltasse, de comer ou de beber, do corpo ou da alma, eram elas que proviam.

Estar em uma família grande, quando tudo está indo bem. As perspectivas são boas, as pessoas estão ocupadas e à vontade. Todos estão acompanhados, e o lugar em que estamos nos pertence.

* * *

É preciso encontrar o valor das palavras de alguma forma, agora que foram destruídas pelos noticiários que exageram tudo, todos os dias. As primeiras páginas do livro são marcantes, se conseguirmos desfazer nas nossas mentes a banalização das letras.

No dia 19 de setembro de 1835 eclode a Revolução Farroupilha no Continente de São Pedro do Rio Grande. Os revolucionários exigem a deposição imediata do presidente da província, Fernandes Braga, e uma nova política para o charque nacional.
O exército farroupilha, liderado por Bento Gonçalves da Silva, expulsa as tropas legalistas e entra na cidade de Porto Alegre no dia 21 de setembro.

Exigir. Expulsar. Se você agride, deve esperar uma resposta. E não será necessariamente você quem estará exposto.

Antes de partir à frente de seus exércitos, Bento Gonçalves manda reunir as mulheres da família numa estância à beira do Rio Camaquã, a Estância da Barra. Um lugar protegido, de difícil acesso. É lá que as sete parentas e os quatro filhos pequenos de Bento Gonçalves devem esperar o desfecho da Grande Revolução.

O que o líder do exército tem de mais precioso, escondeu e protegeu como pôde. Precisará se concentrar na guerra, enquanto a alma e o sentido de tudo ficaram numa casa.



                               A Farmhouse In a Polder - Johan Hendrik Weissenbruch

* * *

Vivemos problemas pelos quais não podemos encontrar responsáveis diretos, nem soluções claras. Um bairro que é feio, porque o orçamento foi racionado e distribuído entre várias prioridades. Um governo corrupto, que se derrubado dará lugar a uma ditadura fundamentalista. O livro nos alivia a angústia de estar diante de tantos entraves, nos transportando para momentos em que é tudo ou nada:

... devia estar pensando em Bento, no peito de Bento, desafiando as espadas, as carabinas e as adagas, conduzindo seus homens e seus sonhos.

* * *

A autora arrisca entregar parte do fim já nos primeiros capítulos. Talvez porque confie no magnetismo de sua obra.

... nenhum de nós naquela casa voltaria a ser o mesmo de antes, nem os risos nunca mais soariam tão leves e límpidos, nunca mais aquelas vozes todas reunidas na mesma sala, nunca mais.

* * *

Amyr Klink falou uma vez sobre as viagens:

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver.

Acho que o mesmo é verdade sobre a literatura. Deveríamos conhecer a literatura estrangeira, e depois visitar a literatura do nosso chão, de preferência da nossa cidade ou das proximidades. Escrita pelas pessoas que viveram uma vida parecida, e que acabam entregando suas manias e preferências, que reconhecemos nos personagens, mesmo que sejam de uma ficção sobre duzentos anos atrás.

* * *

As habitantes da casa têm a oportunidade do prazer da melancolia. A guerra não lhes permite viajar para Porto Alegre, nem encontrar conhecidos. Mas também não lhes traz riscos, nem distrações. Podem ler, imaginar, viver humanidades por muito tempo. Viver mais anos do que aqueles que ali passavam. Marcados pelas estações.


                               Autumn Landscape - Johan Hendrik Weissenbruch

* * *

O que gostei de verdade nesse livro foram suas imagens e sensações, principalmente no início.

Senti falta de doses suficientes de realidade. E a realidade é importante para um adulto que lê um romance, porque o romance precisa nos iludir para funcionar. Precisa parecer real.

Os personagens que foram para a guerra se mostraram todos corajosos e valorosos. Nenhum entrava em pânico, ou hesitava, ou chorava de medo. Os guerreiros ou lutaram bravamente e passaram incólumes até seu desfecho, ou morreram como heróis gregos, ou retornaram com cicatrizes que os deixaram ainda mais belos. Ninguém voltou com danos psicológicos, ou algo além de uma seriedade que deixou seu olhar mais severo e charmoso. Ninguém voltou com o hábito de racionar comida por temer não ter o que comer mais tarde. Ninguém se viu com dificuldades de sentir alegria, porque repetidamente é perturbado por lembranças horríveis.

Os escravos e escravas das famílias das sete mulheres não parecem ter problemas com o fato de que são escravos. Não se sentem humilhados pela rudeza de seus donos. Não sentem vontade de liberdade. Não pensam sobre suas vidas e seus futuros. Não sentem saudades de ninguém. Não pensam nem sentem nada, enquanto as sete mulheres são atormentadas por pensamentos e sentimentos das primeiras às últimas páginas. Uma protagonista é atormentada por décadas pelas lembranças de um namorico de verão.

Dos estragos que a guerra necessariamente faz nas rendas, nos patrimônios e na quantidade de comida que é possível colocar nos pratos, não se fala quase nada.

Sobre a falta de realismo, é jogada uma dose de pressentimentos e ocorrências sobrenaturais, que vai despertar interesse em parte dos leitores. Não é o caso do cético que aqui comenta.


                                                  A Cow Standing By The Waterside In A Polder - Johan Hendrik Weissenbruch

Da leitura, ficarei com uma boa lembrança sensorial, que ilustrei aqui com paisagens europeias que transmitem tão bem os ares de outono dos campos do Rio Grande do Sul.