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quarta-feira, 15 de março de 2017

A Importância dos Livros



Copiado de The Book Of Life

Os grifos são meus.

E só sou capaz de grifar. O motivo está no corpo do texto.


The Importance of Books


Around 130 million books have been published in the history of humanity; a heavy reader will at best get through 6,000 in a lifetime. Most of them won’t be much fun or very memorable. Books are like people; we meet many but fall in love very seldom. Perhaps only thirty books will ever truly mark us. They will be different for each of us, but the way in which they affect us will be similar.

The core – and perhaps unexpected – thing that books do for us is simplify. It sounds odd, because we think of literature as sophisticated. But there are powerful ways in which books organise, and clarify our concerns – and in this sense simplify.

Centrally, by telling a story a book is radically simpler than lived experience. The writer omits a huge amount that could have been added in (and in life always – by necessity – is there). In the plot, we move from one important moment directly to the next – whereas in life there are endless sub-plots that distract and confuse us. In a story, the key events of a marriage unfold across a few dozen pages: in life they are spread over many years and interleaved with hundreds of business meetings, holidays, hours spent watching television, chats with one’s parents, shopping trips and dentist’s appointments. The compressed logic of a plot corrects the chaos of existence: the links between events can be made much more obvious. We understand – finally – what is going on.


Writers often do a lot of explaining along the way. They frequently shed light on why a character is acting as they do; they reveal people’s secret thoughts and motives. The characters are much more clearly defined than the people we actually encounter. On the page, we meet purer villains, braver more resourceful heroes, people whose suffering is more obvious or whose virtues are more striking than would ever normally be the case. They – and their actions – provide us with simplified targets for our emotional lives. We can love or revile them, pity them or condemn them more neatly than we ever can our friends and acquaintances.

We need simplification because our minds get checkmated by the complexity of our lives. The writer, on rare but hugely significant occasions, puts into words feelings that had long eluded us, they know us better than we know ourselves. They seem to be narrating our own stories, but with a clarity we could never achieve.

Literature corrects our native inarticulacy. So often we feel lost for words; we’re impressed by the sight of a bird wheeling in the dusk sky; we’re aware of a particular atmosphere at dawn, we love someone’s slightly wild but sympathetic manner. We struggle to verbalise our feelings; we may end up remarking: ‘that’s so nice’. Our feelings seem too complex, subtle, vague and elusive for us to be able to spell out. The ideal writer homes in on a few striking things: the angle of the wing; the slow movement of the largest branch of a tree; the angle of the mouth in a smile. Simplification doesn’t betray the nuance of life, it renders life more visible.


The great writers build bridges to people we might otherwise have dismissed as unfeasibly strange or unsympathetic. They cut through to the common core of experience. By selection and emphasis, they reveal the important things we share. They show us where to look.

They help us to feel. Often we want to be good, we want to care, we want to feel warmly and tenderly – but can’t. It seems there is no suitable receptacle in our ordinary lives into which our emotions can vent themselves. Our relationships are too compromised and fraught. It can feel too risky to be very nice to someone who might not reciprocate. So we don’t do much feeling; we freeze over. But then – in the pages of a story – we meet someone, perhaps she is very beautiful, tender, sensitive, young and dying; and we weep for her and all the cruelty and injustice of the world. And we come away, not devastated, but refreshed. Our emotional muscles are exercised and their strength rendered newly available for our lives.

Not all books necessarily contain the simplifications we happen to need. We are often not in the right place to make use of the knowledge a book has to offer. The task of linking the right book to the right person at the right time hasn’t yet received the attention it deserves: newspapers and friends recommend books to us because they work for them, without quite thinking through why they might also work for us. But when we happen to come across the ideal book for us we are presented with an extraordinarily clearer, more lucid, better organised account of our own concerns and experiences: for a time at least our minds become less clouded and our hearts become more accurately sensitive. Through books’ benign simplification, we become a little better at being who we always really were.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Gigante Enterrado - Kazuo Ishiguro



Cometi o erro de pensar que iria gostar de um livro. Mas dessa vez, pelo menos, o erro me divertiu.

Para mim, cada linha de um livro tem que valer a pena. Os parágrafos têm que ser todos bons. Não sou pego pelo suspense, nem fico curioso para saber o que vai acontecer no fim. O livro pode ser puro realismo ou pura fantasia, desde que as vontades e medos das personagens sejam reais, e as páginas sejam belas.

Em O Gigante Enterrado, o Bestseller número 1 do Sunday Times, só me senti envolvido no início, quando o casal Axl e Beatrice se sentem diminuídos em um vilarejo, onde são debochados pelas crianças, desprezados pelos trabalhadores e objeto de pena dos vizinhos. Certo dia resolvem deixar suas tristes vidas para trás e partem para uma viagem para encontrar o filho que não veem há muito tempo.

O que se passa desde a partida é enigmático: todas as pessoas que existem na história sofrem de memória curta, há bestas e ogros não descritos que atacam pessoas, há guerreiros que não se sabe ao certo de onde vem ou o que querem, há pessoas hospitaleiras não se sabe por quê, há dragões escondidos, há mentiras sendo contadas, o filho que o casal procura pode não existir... e lá se foram cento e trinta páginas sem que nada se esclarecesse, sem uma ocorrência memorável, sem uma reflexão que valesse a pena. Senti tédio e dificuldade de me concentrar.

Em busca de encorajamento, voltei para as revisões positivas sobre o livro. Uma delas dizia: "A literary tour de force so unassuming that you don't realize until the last page that you are reading a masterpiece"

Parece que a intenção era elogiar a obra, mas se dissessem isso sobre algo que eu escrevi, ficaria muito triste. Só na última página o leitor pode concluir que o livro é uma obra prima? O que o leitor deve fazer durante as trezentas e sessenta e uma páginas que vem antes? Rezar e confiar que a última página salvará o tempo perdido?

Insisti na tentativa de ler mais uns parágrafos. Os mistérios e as promessas de acontecimentos continuaram se acumulando e perdi a paciência. Resolvi ler logo a última página para ver o que acontece no final tão celebrado. E de fato acontece algo assombroso: é dolorosamente previsível. Eu já havia matado a charada na página quarenta e cinco, onde o que vai acontecer no fim fica tão óbvio que pode ser chamado de spoiler.

Um barqueiro é acusado de ter deliberadamente e cruelmente separado um casal. Ele teria levado o marido de barco até uma ilha, e depois se recusado a levar sua esposa conforme havia se comprometido. Em resposta à acusação, o barqueiro se explica para outro casal, que é o casal protagonista do livro:

Occasionally a couple may be permitted to cross to the island together, but this is rare. It requires an unusually strong bond of love between them. It does sometimes occur, I don't deny, and that's why when we find a man and a wife, or even unmarried lovers, waiting to be carried over, it's our duty to question them carefully. For it falls to us to perceive if their bond is strong enough to cross together. This lady is reluctant to accept it, but her bond with her husband was simply too weak. Let her look into her heart, then dare say my judgement that day was in error.

Tentei ler o último capítulo desde o começo, para ver se conseguia encontrar um significado maior no final óbvio. Mas fiquei entediado novamente.

Procurei na internet um resumo do livro, para ver o que perdi nas mais de duzentas páginas que pulei. Encontrei, mas só consegui ler metade. Até o resumo era chato. E as críticas na internet também são longas demais, e nem um pouco claras. Me parece que esse livro e tudo o que se escreve sobre ele está envolto em uma névoa de confusão. Será um milagre se esse post entreter alguém.

Mas pelo menos deixo esse livro para trás me sentindo intrigado. Só se fala bem da obra por todos os cantos. As críticas são tediosas, mas falam bem. Reconheço que muito possivelmente o livro tem atributos que não capturei, uma beleza que eu não soube apreciar, talvez significados importantes que eu não entendi.

Então segue a aclamação deste livro, de que não gostei, nem terminei. E já que reconheci que pode ser por pura falta de entendimento ou de gosto, peço para ser perdoado por um pouco de negatividade.


Revisões

Abaixo, apenas algumas das revisões que acompanham o livro, e que são uma pequena amostra de como a obra está sendo elogiada. Uma sugestão de que posso estar muito enganado na minha avaliação.

"Um conto extraordinariamente atmosférico e compulsivamente legível... Um belo e comovente livro sobre o dever de lembrar e a ânsia de esquecer". Alex Preston, Observer

Comentário meu: esses são alguns atributos de que gosto em um livro: que seja atmosférico, e que nos incomode ao nos criticar por esquecer propositalmente de coisas desagradáveis. O problema é que não encontrei esses atributos no livro, apenas alegorias sobre os temas.

"Absolutamente característico, comovente e perturbador... Mesmo depois de terminado o livro, muitos dias depois, você percebe que não consegue parar de pensar sobre ele..." Financial Times

Comentário meu: eu não conseguia pensar na obra nem enquanto estava lendo.

"...você não esquecerá esse livro tão cedo depois de virar suas últimas páginas. O final, particularmente, irá assombrar." Washington Post

"... É o final mais emocionalmente ruinoso que eu já li em muito tempo...". Slate

"... O final, como frequentemente acontece com este autor, é ainda mais devastador por ser tão controlado." Independent on Sunday

"As cenas conclusivas são muito impactantes...". Globe and Mail

"Imensamente satisfatório... a passagem final é uma das melhores coisas que já li." Saturday Paper

Comentário meu: talvez se eu não houvesse previsto o final, compartilharia da opinião das cinco revisões acima. Mas acredito que não. Livro bom, para mim, é aquele que pode ser interrompido no meio e mesmo assim te deixa feliz pelo tempo que você viveu nas páginas até ali. Em um livro bom de verdade, o final é irrelevante.

"Seu novo romance é cheio de imagens assombrosas... provoca fortes emoções - e permanece na mente." Economist

"Maravilhosamente estranho... O Gigante Enterrado nos mostra que para nações, assim como para indivíduos, pode haver memórias tão dolorosas e danosas que se tornam perigosas demais de se encarar." Evening Standard

Comentário meu: aqui sou obrigado a discordar completamente. O Gigante Enterrado não mostra isso, porque é uma obra de ficção. Quem está habilitado a ensinar sobre as nações é a História e a experiência. A narrativa desse livro é fictícia, assim como seus guerreiros, dragões e o feitiço que fazia com que as pessoas esquecessem suas memórias dolorosas e danosas.

"A prosa, como em muitos dos romances de Ishiguro, é lapidária e fascinante, sugestiva de segredos a serem revelados". Atlantic

"Uma delicada estória sobre casamento, memória e perdão... e as questões que emergem no curso de sua jornada... atingem o coração do mistério da vida." San Francisco Chronicle.

"Uma espantosa obra-prima". Le Monde

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um escritor realiza sua obra na solidão

Winter Landscape - Efim Volkov

Um escritor realiza sua obra na solidão. E se for suficientemente bom, deve a cada dia enfrentar a eternidade ou a ausência da eternidade.

Hemingway

domingo, 15 de janeiro de 2017

Todos Os Segredos da Alma de Um Escritor

Emile Claus - The Ice Birds

Every secret of a writer's soul, every experience of his life, every quality of his mind, is written large in his works.

Virginia Woolf

sábado, 24 de dezembro de 2016

Regular and orderly in your life

Violets For Perfume
Henry Herbert La Thangue

Be regular and orderly in your life, so that you may be violent and original in your work. 

Gustave Flaubert

sábado, 3 de dezembro de 2016

Damon Hill - Watching The Wheels



As autobiografias

As autobiografias se apresentam como obras de não-ficção. Deveriam? Por que alguém escreveria um livro sobre suas verdades?

Nesta, algumas contradições aparentes me geraram desconfiança. Fui lembrado da bobagem que é advogar em causa própria. Quão inutilmente tentamos disfarçar nossas razões e desejos!

Acho que é isso o que torna a autobiografia um gênero interessante: o autor faz um esforço para esconder, e assim revela tudo. Oferece uma bela versão de sua vida, que nos permite inferir como deve ter sido sua vida real.

Mas esse post não tentará expor Damon Hill ou chamar atenção para os trechos do livro que me parecem improváveis. Pelo pouco que eu sabia sobre Damon até essa biografia cair nas minhas mãos, já gostava dele. E nessa obra transborda um ser humano que anseia por respeito, reconhecimento e aprovação. Como não simpatizar? Queremos que as histórias de nossas vidas justifiquem que ganhemos um pouco disso.

Para os fins deste post, vou fazer aquilo que não se deve fazer: acreditar. Vou partir do princípio de que é tudo verdade, embora eu duvide.


A história de Damon

A história do Damon é como a de um ninguém. Um que, como tantos humanos, complica sua já difícil tarefa de existir dedicando-se a um sonho tolo e perigoso: ganhar corridas de motocicletas.

Damon persegue seu objetivo sem a orientação de um tutor, condições propícias, conhecimento ou dinheiro. Seu pai, Graham Hill, um bi-campeão e depois dono de equipe, lhe daria tudo isso, se não houvesse morrido pilotando o próprio avião quando Damon ainda era um garoto. Para a família, ficaram as dívidas da equipe de F1 recém estabelecida e processos judiciais. Para piorar, os seguros de vida não funcionaram, porque Graham estava com a licença vencida quando seu avião caiu.

Um futuro sofrido parecia se desenhar. Damon nunca se interessara pelos estudos. Tolerava a escola. Quando saiu, desejou nunca mais pisar em uma. Tinha paixão por motocicletas, que satisfazia participando de corridas amadoras e gastando dinheiro que não tinha. Mas só perdia. Caminhou para os trinta anos de idade com uma consciência triste e madura de que nunca seria campeão de nada. Para se sustentar e para estar próximo dos motores, trabalhava de motoboy.

E de tanto praticar aos finais de semana nas competições das redondezas de sua cidade, contra pilotos cada vez mais novos do que ele, começou a ganhar algumas corridas. Sua insistência no esporte arriscado deixava sua mãe cada vez mais preocupada. Talvez por saber que não conseguiria fazer Damon abandonar a velocidade, tentou pelo menos convencê-lo a entrar em algo um pouco menos mortal: ao invés de motos, carros.

Com a ajuda de um velho amigo da família, Damon entrou com cara e jeitão de veterano em uma corrida de monopostos, para enfrentar gente mais jovem e experiente. Enquanto os guris voavam na pista, ele, o mais velho, rodava, lerdeava e batia, convencendo a imprensa local de que o filho do Graham Hill era ruim ao volante.

Mas havia patrocinadores dispostos a pagar para estampar o macacão e o carro do filho do bi-campeão. Pelo dinheiro que entrava para pagar a hipoteca e sustentar a família, aceitou conviver com as frequentes derrotas e humilhações nas pistas. Os erros mais crassos na direção ele não precisava repetir. Rodadas e batidas foram diminuindo. Até ganhar corrida ele ganhou. E até subir de categoria ele subiu. Aprendeu a dirigir carros mais velozes. E por saber pilotar máquinas assustadoras e por precisar de dinheiro, aceitou um emprego de piloto de testes da Williams, para ficar dando voltas o dia inteiro com o carro enquanto os mecânicos capturavam dados para desenvolver o equipamento utilizado pelos pilotos titulares.

A primeira volta numa Williams foi como seus usuais fracassos: ajustou errado os botões na saída da garagem e fez o equipamento de dezenas de milhares de libras queimar. A segunda tentativa foi menos infeliz. Damon se sentiu maravilhado com o carro tão rápido e equilibrado. Os técnicos perguntaram o que ele havia achado, e ele respondeu que era incrível. Mas não era isso o que eles queriam ouvir. Queriam informações sobre de que forma o carro poderia ser melhorado.

O trabalho de passar o final de semana todo dirigindo em círculos e esgotando suas forças era para que a equipe aprimorasse o carro mais superior dos anos noventa. Aqueles testes um tanto secretos resultariam na Williams que Ayrton Senna via sumir na sua frente, e que ele chamava de ''carro do outro mundo.'' Um carro ativo, que, entre outras coisas, controlava sozinho a distância para o chão, regulando a pressão aerodinâmica, equilibrando velocidade e aderência. O piloto aproveitava um passeio tranquilo enquanto disparava feito um foguete na frente dos melhores corredores.

Mas Damon Hill não podia correr com aquele carro. Só podia testá-lo para que fosse melhorado para seus colegas. Em 1992, Damon Hill conseguiu uma vaga de piloto titular na Brabham, equipe próxima de fechar as portas e dona de um dos carros mais lentos da época. Tão lento que, aos sábados, fazia tempos tão ruins que era proibido de correr no dia seguinte. E quando milagrosamente conseguia se classificar para correr no domingo, Damon virava retardatário e tomava várias voltas do Nigel Mansell, que dirigia o carro que ele conhecia tão bem.

Nigel Mansell e Damon Hill


Última opção de segundo piloto - 1993

Mansell foi campeão naquele ano. Depois abandonou a equipe repentinamente, por se sentir ofendido com as negociações que aconteciam pelas suas costas entre sua equipe, Alain Prost e Ayrton Senna. Pega de surpresa, a Williams precisou contratar alguém às pressas para o lugar de Nigel, e que aceitasse ser um piloto número dois, para apenas apoiar o piloto principal, Prost. Damon Hill lembrou o time de que ele sabia pilotar aquele carro. Por falta de alternativas, Damon acabou contratado para ser sempre segundo. E ficou muito feliz. O salário era baixo, mas era o maior dinheiro que poderia ganhar.

Em sua primeira corrida pela Williams, como de costume, deu tudo errado. Dirigindo o carro mais fácil de controlar que já existira, Damon perdeu o controle, rodou e abandonou a corrida. Do lado de fora da pista, ficou assistindo a tudo deprimido, sendo fotografado desmoralizado para o deleite dos jornais.

Na corrida seguinte, ficou com medo de bater de novo e deixou Senna passá-lo facilmente em Donnington Park. Arrepende-se até hoje. Mas pelo menos terminou a corrida. Corrida tão marcante que rendeu até um museu, diga-se de passagem. Foi um passo adiante.




Damon diminuiu a taxa de erros ao longo do ano. Até que ganhou uma, duas, três corridas. Teve a honra de ter Alain Prost pedindo que não lhe ultrapassasse, e de ser reprimido por Ayrton Senna por ousadia nas manobras.

No fim do ano, a história se repetiu. A Williams queria o Senna na equipe, coisa que o Alain Prost não aceitaria. Alain foi convencido a deixar a equipe para fazer lugar, e uma vaga de segundo piloto para mais um ano sobrou para o Damon.

Damon e Ayrton viraram colegas. Admirar Senna não é difícil, mas Damon vai além. Chama-o de ''mestre''. Descreve seus gestos com reverência. Narra suas falas e atitudes como impossíveis de se replicar. Conta que os mecânicos e demais colegas da Williams não falavam com ele, porque eram assombrados pela sua presença. Ficavam retraídos diante da sua celebridade e seriedade.




Mesmo assim, Damon defende que a morte de Senna em Ímola não foi causada por falha de equipamento. Em um capítulo sobre o assunto, Damon sugere que Senna perdeu o controle do carro por ter arriscado demais. Na Curva Tamburello havia elevações no asfalto, e Damon desviava delas, perdendo um pouco de tempo. Se passasse sobre elas, concluiria a curva mais rapidamente, mas correria o risco de o carro pular, cair, encostar o assoalho no chão, perder pressão aerodinâmica e escapar para o lado, terminando naquele muro assassino. Já Senna, de acordo com Damon, havia partido para o tudo ou nada, e passava pelas irregularidades do asfalto para ganhar vantagem. Pelas imagens da corrida, Damon interpreta que aconteceu com Senna exatamente o que ele tentava evitar ao desviar das elevações.


Última opção de primeiro piloto - 1994

Depois daquele fim de semana trágico, a Williams precisou promover a primeiro piloto aquele que não pretendia escolher nem para segundo: Damon Hill.

Damon ganhou corridas naquele ano de 1994, mas expressa que sentia que a equipe nunca levou fé nele, nem deu a ele a atenção que um candidato ao campeonato precisaria para vencer. Além disso, pipocavam sugestões de que a Benetton, equipe de Michael Schumacher, era movida à trapassa. O motor fazia um som estranho que sugeria que poderia ter controle tração. A mangueira que abastecia o carro com gasolina violava o filtro para fazer uma parada de boxes mais rápida. O carro arrancava com velocidade na volta de apresentação, o que levou a suspeitas de que tinha um sistema de largada automático. E o contato com o chão era impedido por uma barra proibida.

Não bastasse, depois de bater no último grande prêmio do campeonato, Schumacher jogou o carro para cima de Damon para eliminá-lo da corrida e ganhar o campeonato por um ponto. Narrada assim, a temporada de 1994 tem um campeão de fato: Damon Hill. Mas no papel ainda consta Schumacher.


Última opção de primeiro piloto - 1995

Damon Hill descreve esse seu ano na Formula 1 como vergonhoso. Bateu e rodou mais do que o aceitável. Em uma das últimas reuniões de equipe do ano, entrou na sala envergonhado, com vontade de chorar, e sentindo necessidade de aprovação paterna dos seus chefes.

Mas seu emprego estava seguro. O contrato para 1996 fora assinado durante o campeonato, quando ele ainda não tinha cometido tantos erros.


Um ano com um carro confortável - 1996

Damon diz que o carro de 1996 fora desenhado para ele, era muito equilibrado e o deixava confortável. Schumacher estava fora da disputa, com uma Ferrari que apresentava muitos problemas. Damon disse que foi fácil ganhar aquele campeonato, apesar da pressão de ter um companheiro de equipe bem mais jovem e quase tão rápido quanto ele, que nas pistas ameaçou humilhá-lo, roubando seu título na estreia.

Numa das últimas corridas no ano, a que lhe rendeu o campeonato, Damon percorreu a volta de encerramento já com nostalgia, despedindo-se com carinho do carro, pois seu contrato não fora renovado. Para a equipe, talvez ele fosse um campeão circunstancial.


Os três últimos anos na Formula 1

Damon correu pela Arrows, um carro não competitivo, em 1997. Liderou uma corrida e quase venceu, até o equipamento quebrar.Em 1998, Damon correu pela Jordan, e deu à equipe sua primeira vitória, na Bélgica. Dois anos que talvez comprovem ao olhar atento que Damon era um grande piloto.

Então veio 1999, quando Damon se sentiu muito mais lento que seu companheiro de equipe, Heinz-Harald Frentzen, ficou mentalmente desestabilizado, passou a sentir muito medo de morrer jovem como seu pai e teve ataques de pânico. Tentou assinar uma saída antecipada da categoria, mas não conseguiu o que queria nas negociações. Participou das últimas corridas temeroso, desejando que terminassem rápido.


Fim de carreira

Fora das pistas, Damon teve depressão. Fez terapia para aprender a lidar com incertezas e inseguranças que, afirma, são resultado da bagunça que seus pais fizeram em sua cabeça quando era criança.

Damon aproveita a aposentadoria para ler livros sobre filosofia e religião e aproveitar a família. Usou o tempo livre também para se formar em literatura pela Open University.

Aqui, abro parênteses para invejar saudável e abertamente: eu também queria ter convivido com o Ayrton Senna, com o Alain Prost, ter estado nas pistas de Formula 1 nos anos em que os carros estiveram mais bonitos, ter enriquecido, ter me aposentado cedo, ter estudado literatura e ter os dias inteiros para ler filosofia.




Essa autobiografia permite ao leitor sentir uma aproximação improvável com um ambiente tão exclusivo. Uma competição para a qual as pessoas começam a treinar com quatro anos de idade, mas para a qual ele só começou a se dedicar perto dos trinta. Uma categoria em que se precisa entrar com muito dinheiro, e ele precisou entrar sem. Um campeonato em que, para se vencer, é importante ser o favorito da equipe, mas onde ele era o preterido. Uma luta em que é preciso estar com a mente boa, e a sua estava perturbada. Uma batalha em que é preciso ser confiante, e onde ele vivia inseguro.

Ainda assim, tornou-se um campeão, emocionando Murray Walker durante uma narração história, enquanto Damon Hill vencia a corrida que empacotava o ano:

Isso é algo que muitas pessoas pensaram que não seria possível de acontecer hoje - eles acharam que Damon correria uma corrida cuidadosa, mas ele lutou. Ele lutou de segundo lugar no grid, ultrapassou Jacques Villeneuve, tomou a liderança, manteve-a, e Damon Hill sai da chicane e vence o Grande Prêmio do Japão. E eu preciso parar, porque estou com um nó na garganta.

Para concluir

Se essa biografia é sincera, completa e precisa, o Damon Hill é um grande gente boa. Do contrário, é um dos meus personagens preferidos da ficção.

O livro é cheio do maravilhoso humor britânico, auto-depreciação, e descrições vívidas de vivências e sentimentos de família.

Leitura prazerosíssima sobre uma vida extraordinária.


Outras revisões

Endossada!

https://www.theguardian.com/sport/blog/2016/sep/02/damon-hill-depression-graham-autobiography-formula-one

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Paisagem pintada

Marine Landscape (The Cape And Dunes Of Saint-Quentin) - Jules Dupre
... lemos romances de aventura, novelas de cavalaria, romances baratos (histórias de detetive, de amor, de espionagem e por aí afora) para ver o que acontece na sequência; mas lemos o romance moderno (o que hoje chamamos de "romance literário¨) por sua atmosfera. De acordo com Ortega y Gasset, o romance de atmosfera é algo mais valioso. É como uma "paisagem pintada" e contém bem pouca narrativa.
Pensamentos de José Ortega y Gasset, tirados de "O romancista ingênuo e o sentimental", de Orhan Pamuk.