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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Com Sabor De Terra - Alcy Cheuiche

Esse livro permite viver por algumas horas o prazer de tradições, sabores, histórias, cheiros e imagens dos campos do Rio Grande do Sul. Por isso, vale a pena.




Também se aprecia o jeito de falar que se desenvolve na região como arte viva. Aqui, é o próprio autor contando sobre como João Vargas se preparava para declamar:

Logo, várias mãos se espicharam e ele escolheu a que lhe oferecia uma guampa de cachaça. Deu uma golada, limpou a boca com as costas do braço e foi chamando para si a atenção da rapaziada barulhenta. Quando o guitarreiro tirou os primeiros acordes da milonga, o velhito segurou o pala com a mão direita e começou a declamar.

E agora, o próprio João Vargas:

Ninguém me toca por diante,
tampouco não cabresteio,
eu me empaco, me boleio,
e não saio nem com sinuelo,
tourito de outro pelo
não berra no meu rodeio.  

O livro é ainda uma coleção de histórias e citações de intelectuais do Brasil e do mundo.

Às vezes, boas leituras são um debate com o leitor. São provocações à nossa crítica. Esse livro me deu pelo menos duas.

Uma foi esse elogio a Sartre:

Para mim, Sartre brilhou em toda sua plenitude no dia em que se recusou a aceitar o Prêmio Nobel de Literatura... Sartre recusou o prêmio, com seu volumoso cheque anexo, porque não queria ser um escritor rotulado...

A pergunta que, para mim, decorre naturalmente desse elogio a Sartre é: não teria ele brilhado ainda mais se houvesse aceitado o prêmio, gentilmente pedido para não ser rotulado, talvez no tradicional e famosíssimo discurso de recebimento da honraria, e doado o cheque volumoso para a caridade ou para a pesquisa, já que podia abrir mão de tanto dinheiro? Não se trata de uma oportunidade perdida de transferir riqueza de onde sobra para onde falta?

A segunda foi a estória, que eu já ouvira algumas vezes, do executivo estereotipado que tenta convencer um descansado e tranquilo pescador a trabalhar pesado para ficar rico e poder viver descansado e tranquilo. Um conto que me parece uma versão daquela generalização aconchegante: "o rico é um imbecil triste, o pobre é um sábio feliz."

Para quem não conhece a estória ou nenhuma variação dela, aqui vai um resumo: o executivo resolve pescar para descansar. Compra equipamento caro e sofisticado, senta na frente da água, usa sua tecnologia de ponta de varas e iscas artificiais, mas não consegue fisgar nada. Então aparece um pescador humilde com uma varinha barata, iscas naturais, rapidinho pesca uns poucos peixes e começa a caminhar para casa. O executivo critica a falta de ambição do pescador, que se contenta com pouco, e não aproveita seu talento de pescador para conseguir mais peixes, vendê-los, enriquecer e então nunca precisar se estressar. O pescador não vê sentido na ideia, já que, contentando-se com os poucos peixes diários que pesca, ele já não se estressa mesmo.

Essa estória tem alguns elementos para se questionar.

1 - será que os equipamentos sofisticados de pesca realmente não pegam peixes? Se o episódio viesse a acontecer de fato, acho que o executivo se sairia bem.

2 - executivos costumam saber que conflitos geram desperdício de energia e de tempo. E executivos não gostam de desperdiçar energia e tempo. Um executivo se prestar a julgar e a criticar, a troco de nada, um companheiro de pesca recém apresentado não me parece provável.

3 - o autor da estória criou um pescador que se contenta com poucos peixes para se sustentar. Nunca convivi com eles, mas a imagem que eu tenho dos pescadores é a mesma que tenho de qualquer pessoa que dependa do seu trabalho para se alimentar, alimentar seus dependentes, morar, se deslocar, cuidar da saúde e poupar para uma aposentadoria: são gente que trabalha duro. Toda essa turma não tem escolha: é preciso trabalhar muito, o dia todo. Não para enriquecer, mas para sobreviver.

4 - os peixes que o pescador humilde pesca aos poucos todos os dias e toma por garantidos não são garantidos. Podem sumir, por exemplo, por causa da pesca predatória, ou por dano ambiental, que deixam o hipotético pescador humilde quebrado e possivelmente arrependido por não ter pescado um pouco mais e feito umas economias.

5 - no improvável cenário em que o pescador humilde consegue se manter por toda a vida com um peixe aqui e outro ali, pergunto: como ele faz para lidar com uma eventual dificuldade braba, como uma doença que só pode ser tratada gastando uma dinheirama?

6 - se o pescador humilde for acometido por um desejo de viajar o mundo, ou de viver experiências que, infelizmente, custam algum dinheiro, estará complicado se for depender de uns poucos peixes.

7 - se o pescador humilde for um ser humano como qualquer outro, pode sentir curiosidade diante das iscas artificiais e equipamento sofisticado de pesca do executivo, e pode sofrer por não possuí-los, ou por não poder matar a curiosidade de experimentá-las. Mas o pescador humilde da história parece não sentir nada diante dos curiosos objetos do executivo. É apenas o executivo quem sente um impulso incontrolável de agredir gratuitamente o pescador.

8 - se o pescador humilde resolver fazer uma doação de dinheiro para a caridade, não vai ter de onde tirar dinheiro. O executivo vai. E isso acontece com cada vez mais frequência.

Acho que a estória do executivo e do pescador não ensina muito sobre a realidade. Já o fato de essa estória ser popular nos oferece a possibilidade de refletir: como precisamos dessas estórias que nos permitem nos vingar, pelo menos nos sonhos, dos poderosos.

Um comentário:

  1. Encontrei esse blog através do teu blog do intercâmbio nos EUA. Li quase tudo. Quero dizer que acho que escreve muito bem! Concordo plenamente com teus argumentos. Não conheço esse livro nem o autor, mas entendo teu ponto de vista.

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